... MANUEL ALEGRE
Trova do vento que passa
(...)
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
(...)
balada contida em "Fados de Coimbra", cantada por Adriano Correia de Oliveira
... FERNANDO PESSOA
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
in Cancioneiro
... MIGUEL TORGA
Conquista
Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.
Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!
in Cântico do Homem, 1950
... ANTÓNIO LOBO ANTUNES
É próprio do homem não viver livre em liberdade, mas viver livre numa prisão, e já é muito bom.
in entrevista publicada em "Visão", 2006
... FLORBELA ESPANCA
A Liberdade de Coração é uma Mentira
Pois então não vês que é um sonho, uma mentira atroz a liberdade do coração? Não o sentes tu bater, enraivecido e louco, pelo cativeiro? E podes tu, por acaso, soltá-lo? Que irrisão! E se o soltasses, se lhe abrisses de par em par as portas do teu peito, que faria ele em liberdade, pobre leãozito cego?!... Como ele lastimaria o fofo e quente ninho do seu tristíssimo cativeiro! Um coração perdido pela lama do mundo, pelo pó dos atalhos... Que desgraçado coração seria esse! É bem melhor tê-lo como eu digo: «Na paz da tua cela a soluçar...».
in Correspondência, 1916
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